Fascination Street

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


«Não viu nem ouviu nem soube que o seu único epitáfio foi uma carta do bispo de Hiva Oa aos seus superiores, que, com o correr dos anos, já famoso, louvado e estudado Koke e disputados os seus quadros por coleccionadores e museus no mundo inteiro, todos os seus biógrafos citariam como símbolo de quão injusta é por vezes a sorte com os artistas que sonham encontrar o paraíso neste terreno vale de lágrimas: “A única coisa digna de registo ultimamente nesta ilha foi a morte  súbita de um indivíduo chamado Paul Gauguin, um artista reputado mas inimigo de Deus e de tudo quanto é decente nesta terra.» 

Mario Vargas Llosa, O paraíso na outra esquina

(Fonte: fascinationstreet-sp)


Nicolas Jaar - Encore

Parabéns, Móni.

«As pessoas que perderam recentemente alguém têm urna certa expressão que talvez só reconheçam os que já a viram no seu próprio rosto. Reparei nessa expressão no meu rosto e agora reparo nessa expressão no rosto dos outros. É uma expressão de vulnerabilidade extrema, de nudez, de acessibilidade. É a expressão de alguém que sai do consultório do oftalmologista para a luz do dia com os olhos dilatados, ou de alguém que usa óculos e que de repente é obrigado a tirá-los. As pessoas que perderam alguém parecem nuas porque pensam em si mesmas como se fossem invisíveis. Eu própria me senti invisível durante um espaço de tempo, incorpórea. Parecia-me ter atravessado um daqueles rios lendários que separam os vivos dos mortos, que tinha entrado num lugar onde só podia ser vista pelos que também haviam recentemente sofrido urna perda. Compreendi pela primeira vez a força da imagem dos rios, o Estige, o Lete, o barqueiro com o seu manto e a vara. Compreendi pela primeira vez o significado da imolação praticada na Índia. Não é a dor que atira as viúvas para a pira funerária. Pelo contrário, a pira funerária é uma representação exacta do lugar para onde as leva a sua dor (não as famílias, nem a comunidade, nem a tradição — a sua dor). Na noite em que John morreu, faltavam vinte e um dias para o nosso quadragésimo aniversário. Entretanto, já devem ter adivinhado que «a dura e doce sabedoria» dos dois últimos versos de «Rose Aylmer» estava perdida para mim.
Queria mais do que uma noite de recordações e suspiros.
Queria gritar.
Queria que ele voltasse.»
Joan Didion, O ano do pensamento mágico

(Fonte: fascinationstreet-sp)

«Conseguem imaginar a velhice? É claro que não. Eu não conseguia. Não era capaz. Não fazia a mínima ideia de como era. Não tinha sequer uma falsa ideia - não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa qualquer. Ninguém quer enfrentar nada disto antes de não ter outro remédio. Como vai ser? O embotamento é de rigueur.

Compreensivelmente, é inimaginável qualquer fase da vida mais adiantada do que a nossa. Às vezes já vamos a meio da fase seguinte antes de nos darmos conta de que entrámos nela. E então fases anteriores de progresso têm as suas compensações. Mas mesmo assim o meio é assustador para muita gente. E o fim? É, de modo muito interessante, a primeira vez na vida em que nos encontramos inteiramente do lado de fora ao mesmo tempo que estamos nele. Observando durante todo esse tempo a nossa decadência (se temos tanta sorte como eu), encontramo-nos, graças à nossa constante vitalidade, a uma distância considerável da nossa decadência - sentimo-nos até alegremente independentes dela. Inevitavelmente, sim, inevitavelmente há uma multiplicação dos sinais que conduzem à desagradável conclusão, e no entanto, apesar disso, mantemo-nos de fora. E a ferocidade da objectividade é brutal.»

Philip Roth, O animal moribundo 

(Fonte: fascinationstreet-sp)