Fascination Street

«Com vista a facilitar-me os primeiros tempos, minha mãe deu-me, em grande segredo, uma quantia que retirara do seu dinheiro pessoal. Não era uma quantia de vulto, mas tal nos pareceu a ambos. Devolvi-lha em parte, logo que me foi possível, mas minha mãe morreu cedo; não pude pagá-la por inteiro. Minha mãe acreditava no meu futuro. Se alguma vez desejei alguma glória, foi por saber que isso a faria feliz. Assim, à medida que desaparecem aqueles que amámos, escasseiam as razões para conquistar uma felicidade que já não podemos saborear juntos.»

Marguerite Yourcenar, Alexis

(Fonte: fascinationstreet-sp)

«O músico que me ensinava (…) aconselhava a minha mãe a mandar-me para o estrangeiro completar a minha educação musical. Sabia que a existência seria difícil por lá; no entanto, ansiava por partir. São tantos os laços que nos prendem aos lugares onde vivemos que nos parece, ao abandoná-los, mais fácil deixarmo-nos a nós também.»

Marguerite Yourcenar, Alexis

(Fonte: fascinationstreet-sp)

«Deus pesa as almas numa balança. Num dos pratos fica a alma, no outro as lágrimas dos que a choraram. Se ninguém  a chorou, a alma desce para o inferno. Se as lágrimas forem suficientes, e suficientemente sentidas, ascende para o céu. Ludo acreditava nisto. Ou gostaria de acreditar. Foi o que disse a Sabalu:

Vão para o Paraíso as pessoas de quem os outros sentem a falta. O Paraíso é o espaço que ocupamos no coração dos outros. Isto era o que me contava a minha avó. Não acredito. Gostaria de acreditar em tudo o que é simples - mas careço de fé.»

José Eduardo Agualusa, “Teoria geral do esquecimento”

(Fonte: fascinationstreet-sp)